segunda-feira, dezembro 19, 2016

Aqui estou Maria



Entramos na recta final do Advento, do tudo ou nada!...
É sempre Deus quem decide manifestar-se e coloca-nos na condição de O conhecer e de O encontrar. É sempre Ele O mais interessado em estabelecer diálogo connosco, enquanto da nossa parte revelamos distracção ou incapacidade de reconhecer a Sua existência e os seus dons. Deus escolhe sempre o que parece ser insignificante aos olhos dos homens, mas é Ele quem projecta e propõe, dá o primeiro passo; cada chamamento traz consigo uma missão: Maria não é apenas uma criança mas uma mulher escolhida para ser, através do Filho de Deus, Mãe de toda a Humanidade. Ela será a nova Eva, aquela que, ao contrário da primeira, será obediente em tudo à vocação recebida. Deste modo, Maria encontra e deixa-se encontrar. O Anjo Gabriel é portador de uma Palavra que não é apenas discurso, mas é uma força que transforma o coração e imprime uma marca na sua existência; daí o significado do seu nome Força de Deus. Deus deseja a nossa participação no seu desígnio de salvação. Até que ponto me deixo interpelar por esta Força de Deus, que me chama e quer revelar uma missão.


quarta-feira, dezembro 07, 2016

Maria Imaculada


Uma Luz importante no nosso caminho
Todos os anos celebramos uma grande festa no dia 8 de Dezembro: a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Esta expressão quer lembrar-nos que Maria nasceu à perfeita imagem de Deus, sem qualquer falta, sem pecado. Desde o seu nascimento, Deus a protegia. Deus amava-a como a todas as crianças da terra, ricas ou pobres, doentes ou saudáveis. Mas além disso, Deus contava com Ela para que pudesse um dia ser a Mãe de Jesus. Assim Maria foi uma menina como as outras, uma mulher comum do seu tempo. Vivia atenta à Palavra de Deus, pondo-a em prática. Pode dizer-se que deixava irradiar perfeitamente nela o amor que Deus lhe tinha.
Maria quer partilhar com quem ama, a alegria que lhe vai no coração: Deus fez nela coisas maravilhosas! É uma atitude natural para os cristãos. A nossa fé não é uma prisão nem uma obrigação. É uma resposta de alegria às maravilhas que Deus faz nas nossas vidas. Por isso, hoje é dia de partilhar com alegria. De dizer aos outros o que nos vai no coração. Não tenhamos medo se não encontrarmos as palavras certas, o importante é comunicar, fazer como Maria. Dizer que Deus não é uma ideia abstracta: é uma presença no meio de nós que dé um sabor novo à nossa vida. QUE MUDA TUDO!

Senhor Deus, ajuda-me a aprender como Maria a escutar a Tua palavra. Ela escutava aTua palavra, guardava-a no coração ao ponto de se fazer carne na pessoa de Jesus. Ajuda-me a meter Jesus no centro da minha vida.






segunda-feira, novembro 21, 2016

Advento - Tempo de Esperança


Estamos a começar o Advento. É um tempo para preparar o Natal. Ele é para todos, porque o Natal é também para todos. Vamos dando conta, a cada momento com maior nitidez, de que o Natal cristão está a ficar muito escondido dentro das nossas casas e igrejas, e até dentro de nós próprios. O consumismo e a publicidade, a rotina e a indiferença são também algumas razões que têm eclipsado o sentido da vida, o sentido da fé e da esperança. Sem ficarmos fora da órbita da vida, precisamos de corrigir o percurso da vida cristã: não só não podemos perder o sentido do Natal hoje, como também precisamos de o desenvolver sempre mais no suporte de uma fé, esclarecida e forte, para uma vivência da esperança, fundamentada e comprometida. .  A caminhada da preparação para o Natal não é mais um adorno exterior, porventura até enriquecedor da liturgia do tempo, mas uma ocasião fundamental para darmos um ou mais passos para a frente. É um Tempo para aprender a esperar Deus que vem ao nosso encontro. Mas como se faz para preparar um encontro com Deus? A Palavra de Jesus é clara: "Há que acordar!" Que estar praparados para a mudança. Acima de tudo, há que despertar o coração. Às vezes, temos o coração pesado demais. Preocupações, desilusões, enganos, falsos deuses, valores insignificantes...há muita coisa a tornar pesado o nosso coração. E vivemos, como que anestesiados. Sem capacidade de reagir com entusiasmo e energia diante de um acontecimento inesperado.

O Advento é o tempo da esperança verdadeira. O Tempo em que Jesus Se encontra com cada um de nós e mostra a bondade do Pai. Mas há muita gente que não consegue ver esta verdade poderosa. Para ver Deus que Se revela é preciso ter o coração dos pequenos, o coração puro, capaz de se abrir à LUZ. 
O Advento é como uma obra de engenharia. É um tempo para avaliar a qualidade do terreno sobre qual construímos a nossa casa, a nossa vida.
Temos coragem de escavar mais fundo, à procura da rocha verdadeira que é CRISTO? Ou contentamo-nos com terrenos frágeis, sempre instáveis e movediços, incapazes de dar solidez e dignidade ao nosso futuro? Escavar em profundidade não é só escutar a Palavra de Deus: é pô-la em prática! Transformá-la em gestos concretos
 É importante, por isso, que toda a comunidade cristã (crianças, adolescentes, jovens e adultos), individualmente e em grupo, se empenhe neste processo. O Natal não é o passado histórico, celebrado de forma mais ou menos romântica e folclórica, mas é o presente da fé comprometido com o futuro esperado e possível. DEUS não é o passado: É o hoje e o amanhã.

Temos esperança em Deus? As pessoas acreditam em nós quando dizemos que somos alegres em todas as situações porque sabemos que Deus está connosco?
O amor de Deus não perdoa apenas e sem mais…deve provocar a nossa conversão. Damos espaço a Deus para ter uma opinião sobre a nossa vida?
O que dinamiza o mundo é o amor… nunca o medo… em situações em que temos poder, usamo-lo para atemorizar os outros?
Só tem mesmo esperança em Deus quem reza. Rezamos?
Os bens de que dispomos são, em última análise, dom de Deus. Somos capazes de os partilhar? Já nos lembrámos de proporcionar um Natal mais digno a alguma pessoa ou a alguma família?
Praticamos ou praticámos algum acto de violência contra alguém (física…psicológica)?

Vídeo Advento - Ao Encontro da Luz

quinta-feira, novembro 10, 2016

Acreditar em Deus


O Antigo Testamento (=AT) não tem uma definição única de fé, mas há visões diferentes que convergem naquilo que se entende ser a fé: a correta atitude diante de Deus.
As palavras da família de "ámen" são muito usadas. Fé, acreditar (ámen) é ter um apoio para a vida. Quando há um perigo para a vida, deve-se acreditar (ter fé), confiar em Deus pois Ele nos salvará. A salvação não vem de nós mesmos mas de Deus.
Um bom exemplo para entender isso é o capítulo 7 do livro do profeta Isaías. O rei Acaz, rei de Judá enfrenta uma séria ameaça: o rei de Israel e o rei de Damasco fizeram uma aliança e preparam-se para invadir e destruir o país. Ao saberem isto, "agitou-se o coração do rei e do povo, como se agitam as árvores das florestas impelidas pelo vento" (Is 7, 2b). Mas Deus envia o profeta a convidar à fé.
Diante das dificuldades, do medo, acreditar é confiar no apoio que Deus envia. Conclui o profeta: "Se não acreditardes, morrereis (Is 7, 9). Só em Deus há apoio seguro.

O Pai dos crentes
Abraão enfrenta um perigo diferente. Não tem filhos; tudo o que construiu na sua vida perde sentido. Mas Deus convida-o a confiar. Deus desafia Abraão a partir para uma terra nova e promete-lhe uma descendência. No capítulo 15 do livro do Génesis há um belo diálogo entre Deus e Abraão. Mais uma vez, Deus começa dizendo "não temas". Podes confiar em Deus. Se Deus está aqui, não é preciso ter medo.
No versículo 6, o escritor diz: "Abraão confiou no Senhor". A atitude de fé de Abraão é a atitude de quem aceita confiar a sua vida a Deus. Abraão não confia que terá um filho pelas sua próprias forças (é já velho, tal como Sara, sua esposa); Abraão sabe que só Deus poderá superar esta difiuldade. Ter fé é confiar só em Deus e em mais nada nem em mais ninguém. A salvação, a possibilidade de futuro, nasce de uma correta (justa) atitude diante de Deus.

Moisés e a libertação
O livro do Êxodo, como relato da vida e ação de Moisés, introduz uma ideia nova: a fé é um a atitude de escuta e aceitação de uma mensagem. A fé não é apenas uma atitude genérica, uma confiança de fundo em Deus; é acolhimento de conteúdos concretos. No final da travessia do Mar vermelho, depois da derrota do faraó, diz Ex 14, 31: "Israel viu a mão poderosa com que o Senhor atuou contra o Egipto; o povo (...) acreditou no Senhor e em Moisés, seu servo."
A fé tem de ser confiança nas promessas de Deus (sobretudo na terra prometida) mas também obediência e fidelidade á aliança, com base nas ações maravilhosas que Deus fez em favor do seu povo.

A fé e a crise da fé
A certa altura caiu-se num esquema muito simplista: crer era confiar apenas em Deus; e quem acreditasse seria feliz e teria uma vida próspera. Pelo contrário, o infeliz devia a sua miséria à sua falta de fé. O livro de Job vai colocar esse esquema em causa. Job é um homem justo, com uma fé viva, sincera. A quem, inesperadamente acontecem uma série de desgraças. Os amigos de Job interpretam essas desgraças como falta de fé por parte de Job. Mas o pobre Job sente que sempre teve diante de Deus a postura correta. Que fazer?
O que o livro sugere é a necessidade de superar o tal esquema simplista da fé. A fé verdadeira é com o um caminho difícil, cheio de contrariedades. E esse caminho árduo faz nascer dentro da pessoa uma fé mais madura. Não uma fé fácil sem perguntas mas uma fé que interpela o próprio Deus, que se pergunta pelo sentido do sofrimento inocente.

Um só Deus
Habitualmente temos claro que o povo de Israel se distinguia dos outros povos por ser monoteísta, por acreditar num só deus, enquanto os outros eram politeístas, isto é, acreditavam em vários deuses.
Na realidade, durante muito tempo, mesmo os israelitas crentes pareciam aceitar a existência de outros deuses além de Javé: "Não terás contigo um deus estrangeiro, nem te prostarás diante de um deus estranho. Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirou da terra do Egipto" (SI 81, 10-11). O importante para a fé israelita era que só Javé, que tinha chamado Abraão e dado uma descendência, que tinha libertado o povo através de Moisés, que sempre tinha acompanhado e protegido o seu povo, era merecedor de fé, de confiança.
Diante dos outros "deuses", os israelitas pareciam dizer: "eles existem mas são inuteis; só Javé nos protege e salva!"
É só depois do exílio, precisamente quando as promessas de Deus parecem ser postas em causa, que alguns sábios e profetas reagem com um forte monoteísmo. Só há um Deus. Tudo o resto são ilusões e mitos.

Desafios a reter
- Acreditar é bem mais que afirmar a existência de Alguém. É confiar em Deus.
- Acreditar é manter um estilo de relação confiante em Deus. Mas é também aceitar as propostas objectivas que Deus faz.
- O caminho da fé não é fácil. Acreditamos em Deus que nos protege e salva mesmo quando a nossa existência não mostra isso.

Vídeo - CREIO

sábado, setembro 10, 2016

A alegria de ser cristão


A alegria e o gozo de viver a Palavra de Deus são caracteristicas próprias de um cristão adulto.
Há diversos tipos de alegria, diversos graus. Mas só se pode falar em alegria no sentido pleno quando a pessoa sente que o melhor de si mesmo, das suas capacidades, dos seus desejos se realiza. Há alegria quando encontramos algo profundamente amado.
De acordo com este ensinamento de S. Tomás de Aquino, e vendo as potencialidades desta afirmação o Papa Paulo VI, na exortação apostólica Gaudete in Domino, afirma que o ser humano não só pode sentir e experimentar as alegrias humanas quando está em contacto e comunhão com a natureza e com a humanidade, mas também pode atingior o grau mais elevado de felicidade que é a alegria da comunhão com Deus. Aí, o ser humano conhece a alegria e a felicidade espiritual quando o seu espirito entra em comunhão com deus, conhecido e amado como que de melhor a vida nos traz. A alegria verdadeira não provém dos prazeres efémertos nem das certezas do mundo, mas sim da vida espíritual, pois é um fruto do Espírito.
.

Alegria Cristã
.
A alegria cristã não é apenas um estado psicológico. É por sua essência uma participação espíritual da alegria insondável - simultaneamente divina e humana - do Coração de Deus. Através da oração pode experimentar-se mais profundamente esta grande alegria: cada cristão sabe que vive de Deus, para Deus e em Deus. E ninguém é excluído deste chamamento universal à felicidade, na sua vida concreta. É a partir da vida no espírito, que os discípulos de Jesus Cristo são chamados a participar da alegria de Deus, alegria essa que se fundamenta na participação no amor que há na Trindade. Jesus quer, que cada um de nós sinta dentro de si a mesma alegria que Ele sente: "Eu revelei-lhes o Teu nome, para que o amor com que Tu Me amaste esteja neles e Eu também esteja neles" (Jo 17, 26)
:
O caminho das Bem - Aventuranças
.
Estar dentro do amor de Deus é uma possibilidade que se realiza nesta vida concreta, através da opção pelas coisas do Reino. Claro que pode obrigar a um caminho dificil, mas é o único que leva à verdadeira alegria: o caminho das Bem - aventuranças.
As "Bem - Aventuranças traçam a imagem de Cristo e descrevem sua caridade: exprimem a vocação dos fiéis associados à glória de Sua Paixão e Ressurreição: iluminam as acções e atitudes caracteristicas da vida cristã; são promessas paradoxais que sustentam a esperança nas rtibulações; anunciam as bênçãos e recompensas já obscuramente adquiridas pelos discípulos; são iniciadas na vida da Virgem Maria e de todos os santos. Convém ter presente que a alegria do Reino feita realidade, não pode brotar senão da celebração conjunta da morte e ressurreição do Senhor. É o paradoxo da condição cristã que tem em Jesus Cristo o seu esclarecimento. À luz do novo Adão, os sofrimentos e dificuldades não são iluminados, mas adquirem um novo sentido, porque há a certeza de participar na redenção realizada por Jesus Cristo e participar da Sua Glória. O cristão, por muitas dificuldades que enfrente, desde que esteja inserido na comunhão de amor Trinitário, sente sempre a alegria divina, pois participa do amor de Deus. Esta consciência leva-o a ser sal e luz do mundo, anunciando a Boa Nova com alegria. Deste modo não sucumbirá à falta de fervor, que se manifesta no cansaço, acomodação, desinteresse e desilusão. Antes se revigora continuamente com verdadeiro fervor espiritual.
.

 

Video: O Mesmo Céu
.


.

Abraço fraterno!
Arménio Rodrigues

sábado, março 26, 2016

Aleluia, Jesus Ressuscitou!


É a Páscoa do Senhor! Ressuscitou! Vive! E porque vive, enche de entusiasmo o nosso existir. Anima-nos à esperança. Anima-nos ao testemunho. Anima-nos à fé. É a festa da vida. Do encontro. Da partilha. Em Jesus ressuscitado somos convidados para o encontro com o Evangelho da verdade. Somos comunidade. Somos de Cristo. De Cristo vivo. Feliz Páscoa!

 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. 

O Domingo da Ressurreição, primeiro dia da semana é o começo de uma vida nova; uma nova criação; a libertação definitiva! Tempos novos! Sentido novo! Homem novo! Maria Madalena, discípula do Senhor, não se aquieta à sua ausência. Vai procurá-Lo, prestar-Lhe homenagem, movida pela força do amor! Porque procurou, apesar da noite escura da ausência e da frieza do sepulcro, constatou a novidade: o sepulcro aberto e vazio! Jesus não estava lá! Afinal, a morte não é a última realidade! 

Cada Páscoa, esta Páscoa, pode ser “um primeiro dia” na nossa vida. O início de uma vida diferente, porque marcada pelo sentido novo da Ressurreição. Apesar do escuro da nossa pouca fé, apesar do escuro de uma cultura do evidente e palpável, somos convidados à experiência de vislumbrar sinais de ressurreição anunciadores de uma vida nova! Com e como Maria Madalena e todos os apaixonados pelo Senhor, deixemo-nos mover pela fé e pela sede de Deus! Procuremos o Senhor vivo em nós, nos nossos ambientes, na Igreja, no mundo! Ele está vivo entre nós.



sábado, fevereiro 13, 2016

Quaresma - PRATICA A MISERICÓRDIA


Quaresma - PRATICA A MISERICÓRDIA

A misericórdia não é apenas uma emoção, um frémito interno, frente ao sofrimento alheio: ela nasce como ressonância aguda do sofrimento do outro dentro de mim, mas depois torna-se ética, práxis e virtude, a maior virtude, como dirá São Tomás. E tem razão o Papa Francisco quando diz que «a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta, com que Ele revela o Seu amor, como o de um pai e o de uma mãe que se comovem pelo próprio filho, até ao mais íntimo das suas vísceras” (MV, nº6). E por isso, falamos em «obras», que supõem ação, atitude, movimento de saída de si mesmo ao encontro do outro.

Desde a sua formulação básica e inspiradora, no texto fundamental, alusivo ao Juízo final, em Mt.25,31-46, até chegar, pelo século XII, à sua formulação, em dois setenários, como as duas faces da mesma moeda (a pessoa humana) onde está inscrita a imagem de Deus, as 14 obras de misericórdia apresentam-se ao cristão, não como algo acessório ou facultativo, mas como expressão essencial e concreta do amor a Jesus, nos mais pobres, com quem Ele se identifica: «foi a Mim, que o fizeste» (Mt.25,40). 

A tradição das obras de misericórdia encontra, hoje, portanto, uma renovada atualidade, precisamente no fazer-se memória do essencial, e de um essencial que corre o risco de se perder: ou seja, o facto de a caridade ser encontro de rostos, discernimento concreto das necessidades do corpo e da alma, história quotidiana, gesto e palavra, capacidade de relação, de escuta e de atenção.
Ela pede ao homem que tome a seu cargo quem é necessitado, que tome a sério o sofrimento do outro, e afirma que o homem é homem se acredita na humanidade do outro, mesmo que esta esteja ferida ou diminuída, e se ousa fazer ao outro aquilo que gostaria que lhe fizessem a si. É o que acontece com o samaritano da parábola, que faz tudo o que está ao seu alcance para aliviar concretamente os sofrimentos do homem deixado moribundo à beira do caminho (Lc.10,29-37).
Insistimos, portanto, neste imperativo «pratica a misericórdia», porque a misericórdia, segundo a linguagem bíblica deve ser feita. «Vai e faz o mesmo tu também» (Lc.10,37), diz Jesus ao doutor de lei a quem apresentou a parábola do samaritano. De Jesus, que realiza curas, diz-se «faz tudo bem feito» (Mc.7,27; At.10,38). No juízo final (Mt.25,31-46),donde se recolhem a maior parte das obras de misericórdia corporais, o que distingue os bem-aventurados dos malditos é precisamente o «fizestes» ou o «deixastes de fazer».

“Todo o discípulo, portanto, conhece a vontade de Deus, expressa por Jesus: «prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt.12,7; e também sabe como deve querê-la e praticá-la: seguindo as pegadas de Jesus e aprendendo com Ele, manso e humilde de coração”
E, por isso, não basta, pura e simplesmente “praticar” a misericórdia, como mero exercício voluntarista, mas é preciso ir mais longe: trata-se de “ser misericordioso como o Pai” (Lc.6,36). A qualidade das relações humanas é fundamental quando se quer “fazer” uma obra de misericórdia. Não por acaso, no nosso Plano Diocesano insistimos na necessidade imperiosa de “tratar a todos misericordiosamente, a começar por aqueles que nos procuram” (PDP, 2015, p.31).
Nestes tempos difíceis, recordar a tradição das obras de misericórdia significa, em certo sentido, apreender a caridade como arte do encontro, como arte da relação, como arte de viver, mas significa sobretudo novo impulso de humanidade, para não permitir que o cinismo, a barbárie e a indiferença levem a melhor! Na verdade, “quantas situações de precaridade e sofrimento presentes no mundo atual (…) Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação, que anestesia o espírito (…)

COM ALEGRIA
“A misericórdia não é, pois, uma realidade de sentido único. Envolve-nos a todos: como destinatários e atores” E, num caso, como noutro, ela é sempre fonte de alegria, ela é mesmo “a razão da alegria que o evangelho suscita em nós”.
Bem vistas as coisas, a misericórdia alegra e liberta quem a põe em prática, ainda antes de quem dela beneficia. Fazer o bem também é fazer bem a si próprio. Fazer o bem contribui para o bem-estar da pessoa. Este é um dos sentidos do refrão bíblico: «Faz isto e viverás» (cf. Lv 18,5; Dt 4,1; 5,29; 6,24; Lc 10,28; etc.). Em suma, na obediência ao mandamento divino, encontrarás vida e felicidade, encontrar-te-ás a ti próprio. «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Lv 19,18; Mt 19,19), ou seja, amando o outro, amar-te-ás a ti próprio e descobrirás que o teu verdadeiro «ti mesmo» é aquele que ousas amar. Trata-se, portanto de “uma obrigação portadora de felicidade, uma vez que abre para
a bem-aventurança, já vivida no tempo”. São gestos simples e concretos, que enchem o coração de alegria e oferecem verdadeira consolação.
Acompanhem-nos, pois, nesta longa e bela caminhada,as palavras luminosas do Apóstolo Paulo, quando nos diz: «quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria» (Rm.12,8). Jesus proclamou-o e nós podemos experimentá-lo: “Felizes os misericordiosos” (Mt.5,7).

Como concretizar então este objetivo de “valorizar a formação sobre as obras de misericórdia, traduzidas e concretizadas, para hoje, em resposta às exigências do nosso tempo e aos desafios das novas formas de pobreza” (PDP, 2015, p.31)? Sugerimos fazê-lo deste modo:

VALORIZAR E PRATICAR UMA OBRA DE MISERICÓRDIA,POR SEMANA.

AS OBRAS DE MISERICÓRDIA CORPORAIS

Mt.25; Tob.1,16-18; São Tomás de Aquino S.T.II-II, q.32,a.2,ad 1; GS 27; cf. CIC 2447-2448; EG 197; MV15

Pobreza física ou económica, individual ou estrutural: 

1. Dar de comer a quem tem fome– Mt.25,35: CV 27 [a relacionar com as questões da fome e da má nutrição ou desnutrição];

2. Dar de beber a quem tem sede– Mt.25,35: CV27; LS 30 [a relacionar com a tortura da sede e a falta de água potável];

3. Vestir os nusMt.25,36 [a relacionar com o cuidado dos sem-abrigo e das crianças da rua…];
4. Dar pousada aos peregrinos – Mt.25,35; Regra de S. Bento nº 53, 6 [a relacionar com as questões da Hospitalidade e acolhimento de estrangeiros e refugiados…];

Pobreza relacional e social:

5. Assistir aos enfermos– Mt.25,36 [a relacionar com as questões da visita e acompanhamento dos doentes, da humanização da saúde e da necessidade de “enfaixar as feridas com a misericórdia”];

6. Visitar os presos– Mt.25,36 [a relacionar com a humanização das prisões, o acompanhamento das famílias com reclusos, os problemas da reintegração dos ex-reclusos / dos presos políticos ou religiosos];

7. Enterrar os mortos– Tb.1,17; 12,12ss [a relacionar com as questões do tratamento e da celebração cristã da morte e do acompanhamento das pessoas feridas pelo luto e ainda com as questões ligadas à cremação).

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Quaresma - As nossas mãos

As Nossas Mãos
 
Mãos que falam...

Unidas às palavras, e outras vezes sem elas, os gestos da mão podem exprimir uma ideia, um sentimento, uma intenção. As mãos estendem-se para pedir, estendem-se para receber...as mãos ameaçam, mas também oferecem um presente... estendem-se abertas ao amigo ou apertam, em silêncio, a mão da pessoa amada... saúdam e dizem adeus...

Mãos que rezam...
Os braços e as mãos podem exprimir muito bem a nossa atitude interior e converter-se em símbolo da nossa oração. Os braços abertos levantados foram sempre gestos típicos do homem em oração: «com meus lábios te Louvarei e toda a minha vida te bendirei; a ti levantarei as mãos em oração», assim rezamos no Salmo 63. Uns braços levantados, umas mãos que se estendem para o alto são como um discurso, ainda que diga poucas palavras. Podem ser um grito de angústia ou de súplica, ou uma expressão de louvor e gratidão. A sintonia entre a atitude de espírito e os gestos das mãos pode exprimir, em plenitude, os sentimentos de um cristão em oração: «quero, pois, que os homens ao fazerem oração em qualquer lugar, o façam erguendo as mãos puras, sem ódio nem intrigas», escrevia S- Paulo, na sua primeira carta a Timóteo.

Mãos que recebem o Corpo de Jesus ...
Uma mão aberta que pede, que espera, que recebe. Enquanto o nosso olhar se fixa no Pão que o sacerdote oferece e os nossos lábios dizem: «Amén». Não é uma atitude expressiva para receber o Corpo de Jesus? Durante vários séculos a comunidade cristã manteve o costume de comungar na mão. Pouco a pouco, e por diversas razões, foi-se alterando este costume. Hoje parece voltar a preferir-se a comunhão na mão. E as nossas mãos estendidas têm uma grande força expressiva. Representam uma atitude de humildade, de espera, de pobreza, de disponibilidade, de acolhimento, de confiança. Diante de Deus, a nossa atitude é a de quem pede e recebe confiadamente. E a comunhão do Corpo de Cristo é o melhor Dom que recebemos através do serviço da Igreja. Essas mãoos estendidas falam claramente da nossa fé e da nossa atitude interior de comunhão. As duas mãos abertas e activas: a esquerda, recebendo, e a direita apoiando primeiro a esquerda e depois tomando pessoalmente o Corpo de Jesus; duas mãos que podem ser sinal eloquente de um respeito, de um acolhimento, de um «altar pessoal» que formamos, agradecidos a Jesus que se nos oferece como o Pão de uma Vida em abundância.
E que significam as nossas mãos... nesta Quaresma?
A nossa Eucaristia também passa pelas mãos. Umas mãos que dão, que oferecem, que recebem, que mostram, que pedem, que se elevam até Deus, que se estendem para o irmão, que traçam o sinal da cruz... Esta Quaresma... as nossas mãos... duas mãos abertas: gesto de acolhimento do dom de Deus. Na Quarta.feira de Cinzas, as nossas mãos exprimiam um pedido: «Dai-nos, Senhor...». A partir desse momento tomamos consciência de tudo o que Deus nos dá e já não «pedimos», mas «acolhemos» o dom de Deus: «Vós dais-nos...». São mãos abertas que pedem, reconhecem a sua própria pobreza, que esperam, que mostram a sua receptividade diante do dom de Deus: «Vós dais-nos...».

Uma Santa Quaresma!

Arménio Rodrigues
https://www.facebook.com/fazteaolargo/

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Quaresma






Quarta-feira de cinzas é o primeiro dia, de uma quarentena, que nos conduzirá à Páscoa do Senhor. Estes 40 dias colhem inspiração nos 40 anos do êxodo do Povo de Deus, que saiu do Egito, rumo à terra prometida. Tratou-se de um longo caminho “no deserto”, de uma saída longa e difícil, que desafiou a fé e a esperança do povo. Neste tempo de graça, o Povo de Deus aprendeu a beber do rochedo do qual brotava a água viva, aprendeu a alimentar-se do pão que vem do céu e a pôr a sua esperança no Senhor. Também nós somos desafiados a vir à fonte, a regressar às fontes da verdadeira vida, cuja nascente encontramos na fonte batismal, para “renovar o nosso encontro pessoal com Cristo” (EG 3) e ir ao encontro dos desertos deste mundo, levando a água viva, que jorra do coração de Cristo. “Este é o momento para dizer a Jesus Cristo: 

 VIR À FONTE! “VOLTAI PARA MIM, DE TODO O CORAÇÃO” (JL 2,12)

Este é o primeiro desafio, na Palavra que o Senhor, nos diz hoje: “voltai para Mim, convertei-vos a Mim, de todo o coração” (Jl 2,12)! Somos desafiados a vir até junto do Senhor, a regressar a Deus, a voltar ao coração de Cristo, donde brotam o sangue e a água (Jo 19,34), o batismo e a eucaristia, a cura e a salvação, as verdadeiras fontes da vida. Ao longo desta Quarema, voltemos às sete fontes ou, se quisermos, à fonte das sete bicas. “É Deus quem exorta por nosso intermédio” (II Cor 5,20):

1. Vinde à fonte do Batismo, verdadeira nascente da vida cristã! A Quaresma deve ser um tempo de preparação, de redescoberta e de renovação do batismo e das promessas batismais.

2. Vinde à fonte da Eucaristia, que alimenta e sacia. A Eucaristia é, na verdade, a “fonte e o cume de toda a vida cristã” (LG 11). 

3. Vinde à fonte da Palavra de Deus! Ela é “como a chuva que irriga a terra, a fecunda e a faz germinar” (cf. Is.55,10-11). 

4. Abri a fonte da Esmola, que apaga a chama do pecado! “Alegremo-nos por ela como se fosse uma fonte que nos é oferecida e na qual podemos extinguir o incêndio»” (E.G. 193). Na sua mensagem, o Papa diz-nos que “a Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar, a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói. Desconfio da esmola que não custa nem dói”. Pensemos numa forma concreta de partilha com algum tipo de pobreza. 

5. Vinde à fonte da Reconciliação, que nos lava do pecado. “A Confissão é como um duche depois de uma árdua caminhada”

6. Vinde à fonte de água viva, que jorra do alto da Cruz, do lado aberto do crucificado (Jo 19,34) 

7. Mas, em tudo isto, não percamos de vista o essencial: o encontro com a fonte da vida e da esperança, que é Cristo ressuscitado. Não sejamos cristãos que parecem ter escolhido “viver uma quaresma sem Páscoa”.

SANTA QUARESMA!