sábado, maio 26, 2012

Pentecostes

A festa do Pentecostes encerra o tempo Pascal. Liturgicamente é uma festa muito importante. Mas poucas são as comunidades em que a festa entrou na alma da gente...
Claro que o "problema" não é tanto o ritual e a liturgia. A verdade é que o Espírito Santo na catequese, na teologia e na vida de fé, continua um "bocadinho" ausente.
Mas não somos catequistas para continuar com lamentações. Está nas nossas mãos e na nossa criatividade melhorar a catequese que fazemos e superar as lacunas.
Gostaria de partilhar e descobrir com voçês o Espírito Santo a partir de uma série de símbolos bíblicos.

Quem é? O que faz?
Apesar da nossa ignorância, a verdade é que o Espírito Santo está muito presente em toda a Bíblia. Desde o início, no livro do Génesis o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das àguas (Gen 1,2) até à última oração do último livro (Apocalipse): O Espírito e a esposa dizem: «VEM!» (AP 22, 17). Mas muitas referências ao Espírito de Deus são indirectas. Usam símbolos para mostrar a acção de Deus a acontecer na vida do seu povo. Mas para captar a riqueza comunicativa destes símbolos temos que conhecer e entender o seu significado.

O Vento
Um dos símbolos mais comuns do Espírito é o vento, o sopro de vida. Tanto se refere ao vento que sopra nos grandes espaços como à respiração das pessoas e dos animais. Espírito é o ar que nos faz viver. Sem este sopro de vida não se pode viver.
O Espírito Santo é como o vento: é uma realidade que envolve o mundo e o homem, umas vezes com suavidade outras com força.

A Água
Tal como o símbolo anterior, também a água é um símbolo de vida. Sem água não há vida. E sem o Espírito Santo a vida torna-se árida, seca... e parece-se mais com a morte do que com uma vida digna. A riqueza simbólica da água aparece em muitas culturas e religiões. Mas no cristianismo é reforçada de modo especial pela experiência do baptismo. É que a água, no baptismo, torna-se sinal eficaz que não só recorda a acção de Deus mas que a torna realmente presente e actuante. Há uma característica da água que pode ilustrar muito bem o estilo de actuação do Espírito Santo: a água tende a correr para baixo. Tal como o Espírito Santo. A água vem do céu e cai sobre a terra.
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O Fogo
O fogo manifesta a força do amor que purifica e consome. Jesus Cristo é baptizado com Espírito e fogo (Lc 3 16), aquele fogo que Ele quis levar a todo o mundo (Lc 12, 49) e que foi oferecido aos seus discípulos no dia de Pentecostes (Act 2, 3-4).
O Espírito é como um fogo, como uma chama. Paulo pede aos cristãos: "Não apagueis o Espírito" (1Tes 5, 19).
O Espírito Santo torna-se uma presença consoladora na nossa vida porque nos ajuda a ver como tudo o que vivemos (mesmo as coisas negativas) podem ser transformadas e orientadas para "cima", para Deus. Através de um fogo de transformação, de discernimento.

O Vinho
Os símbolos do Espírito Santo que vimos até agora (vento, água, fogo) são elementos naturais. Mas a Bíblia e a tradição viva da Igreja usam como símbolos outras realidades criadas pelo homem. O Espírito é como um bom vinho; é algo que tem que ver com o sabor. O Espírito dá sabor e sentido à vida. Permite ao homem saborear a sua existência. O vinho é alimento que encoraja o coração (salmo 102); consola nos momentos em que a vida perde sentido e sabor...O Espírito é como o vinho, aquele vinho que nunca faltou nas bodas de Caná, porque Jesus o tornou sempre melhor e mais abundante (Jo 2). Quando Jesus quis deixar no mundo um sinal da Sua presença e do seu amor, além do pão, usou o vinho. Não quis usar apenas um alimento para subsistência; quis também o vinho para viver na alegria.

O Perfume
Plenitude de vida e alegria são sinais são sinais da presença do Espírito de Deus. Mas o Espírito é também o bom perfume da vida. Este é também um dos símbolos do Crisma, com que se consagram as pessoas e as coisas: óleo misturado com perfume. A arte dos perfumes (Ex 30) é uma das mais estimadas do Antigo Testamento. O perfume é um poco como o vento: não se vê mas sente-se. Não se toca mas é algo que penetra em nós e suscita emoções e sentimentos. O Espírito Santo é como um perfume que permite ir para além do visível e do palpável. É o aroma que nos estimula a viver em alegria e em festa.
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O Óleo
Para a Sagrada Escritura, a unção com o crisma, o óleo perfumado, que consagra os sacerdotes, os profeteas, o reis e, especialmente, Cristo (que quer dizer o Ungido) torna participante na abundância do Espírito Santo aos fiéis que recebem a unção (1Jo 2, 20. 27). O óleo, nas culturas tradicionais e não só está associado à cura dos doentes. O que o torna um símbolo adequado ao Espírito. A vida de cada discípulo pode ser comparada a um doente à espera de ser curado. Aliás, o sacramento da unção dos doentes aprofunda essa dimensão. Mas todos nós, estamos carentes da força curativa do Espírito Santo. No corpo, mas principalmente na nossa alma trazemos feridas pesadas: traições passadas, fracassos, violências, desconfianças... tantas coisas que nos doem, ano após ano, que bloqueiam o nosso crescimento e a nossa harmonia. E que só o Espírito Santo ode curar. O azeite, fruto da oliveira, é também símbolo de paz. E a paz é um dos frutos do Espírito. paz e harmonia que sentimos no nosso interior. Mas também paz que propagamos nos nossos contactos com os outros.

O Espírito que está em nós leva-nos a gestos de serviço, de ternura, que aquecem os corações daqueles que mais sofrem. Leva-nos a trazer luz às zonas escuras da vida de tantos dos nossos companheiros.

O dom do Espírito é o sopro de Vida que brotou da Páscoa de Cristo; tudo renova, transforma e vivifica. Este mesmo Espírito que transformou os Apóstolos, habita-nos. Transforma o medo em coragem; o egoísmo em amor partilhado; o orgulho em serviço simples e humilde. É Ele que nos faz vencer obstáculos, superar fracassos, ultrapassar o cepticismo e a desilusão, reencontrar a orientação, readquirir a esperança e fé. É fundamental tomar consciência da presença contínua do Espírito do Senhor em nós, nos outros, nos nossos ambientes, famílias, comunidades, no mundo, e ficar atentos aos seus apelos, interpelações e indicações. Só Ele nos faz viver em Cristo.

ORAÇÃO
Vinde Espírito Divino, celeste consolador, e realizai em nós as obras do vosso amor.
Vinde Espírito Divino, com o dom da sapiência, ensinar a distinguir a verdade da aparência.
Vinde Espírito Divino, com o dom da fortaleza, fazer crescer nossa fé com invencível firmeza.
Vinde, Espírito Divino, vinde ao nosso coração, a mostrar-nos o caminho que conduz à salvação.
(Hino da Liturgia do Pentecostes)



Vídeo - Pentecostes


Vídeo: Espírito Santo





sábado, maio 05, 2012

Ser Mãe...Um Sim à Vida!



Ela era muito jovem, talvez ainda adolescente.
Prometida em casamento com alguma ou muita antecedência, como era costume naquele tempo e na sua cultura, encontrara-se grávida antes da celebração das núpcias.
Isto era muito grave, tão grave que a fazia incorrer na pena de morte, e morte cruel por apedrejamento, embora, em consciência e diante de Deus, estivesse isenta de culpa.
Ao aceitar a gravidez, a jovem sabia, pois, o risco que corria, risco tanto maior quanto ela tinha de assumir, humanamente sozinha, toda a responsabilidade deste facto, perante a sua família, o seu noivo, e as autoridades civis e religiosas.
O que pensaria e como se sentiria, aquela Jovem numa situação tão angustiosa, não sabemos, só poderemos supor.
Sabemos, porém, que a sua atitude foi um Sim à VIDA, acontecesse o que acontecesse.
E por isso, chegada a hora, ela deu à luz “a Vida que era a Luz verdadeira, a qual, vindo ao mundo, a todo o homem ilumina” (Jo 1, 1-9).
Esta jovem foi Maria de Nazaré, uma menina a quem Deus concedeu inúmeros privilégios e dons singulares, mas a quem não livrou do sofrimento e das leis e contingências desta vida. Mas porque Maria acreditou foi feliz e trouxe-nos a felicidade, dando ao mundo a salvação, que é o próprio Filho de Deus incarnado no seu seio. Mas esta salvação dependeu do seu sim, dependeu da aceitação da nova vida, que emergia em circunstâncias de alto risco para a mãe, como pode acontecer, noutras circunstâncias, com tantas mães solteiras, adolescentes ou jovens.
A atitude corajosa de Maria é, pois, para todos nós, mas sobretudo para essas mães de “risco” uma lição, um estímulo e uma proteção.
É uma lição, porque se Maria soube dizer Sim à Vida, em circunstâncias de tanto risco, foi porque aprendeu a dizer Sim a Deus, à sua vontade, aos Seus mandamentos.
É um estímulo, porque se ela pôde vencer todos os medos, e todos os obstáculos, para aceitar a Vida nascente, também os poderão vencer as mães, a quem são dadas graças muito especiais pelo facto de lhes ser atribuída essa vocação e missão, e tanto mais graças quanto mais se forem enchendo de graça, como Maria foi cheia de graça, por isso, cheia de fortaleza do Espírito Santo que A habitava e preenchia totalmente.
É uma proteção, de modo especial para as mães que Nela confiarem, e lhe confiarem a sua gravidez, e os seus filhos, porque Maria ao mesmo tempo que é Mãe de Cristo é nossa mãe, e continua a dizer Sim à Vida, de cada um de nós e por meio de nós.
Que todas aquelas, adolescentes, jovens ou adultas, a quem Deus tenha concedido o dom de serem mães, tenham a coragem e a generosidade de acolher esse dom sublime e, como Maria e sob a sua proteção, o deem à luz, ainda que no “estábulo” da pobreza, da exclusão, ou da condenação social.



Arménio Rodrigues